Igrejas e crentes pós pandemia – como será a volta?

Autor: Lourenço Stelio

Logo após a declaração da pandemia pelo novo Coronavírus em meados de março de 2020 buscamos avaliar o cenário que estaria e estava sendo construído diante da vida eclesiástica e em geral. Nesta coluna foram escritos inúmeros artigos com o objetivo de ajudar aos colegas pastores, líderes e membros das igrejas. Desejando cópia é só me escrever.

Ainda estamos em um vai e vem sobre o término da quarentena diante do complexo quadro em nosso País, agravado pelo colorido político que tem sido dado ao tema. Não é possível delinear com segurança se estamos no momento no final da primeira fase da contaminação pelo Sars-Cov2, se na segunda fase ou mesmo se em alguma onda de novas mutações do vírus.

Logo no início desse período, o amigo jornalista Neriel Lopez, convidou diversos líderes evangélicos para “lives” sobre o tema e daí pudemos contribuir com um capítulo para a publicação do primeiro livro evangélico sobre a pós-pandemia (“Cristianismo Pós-pandemia – impacto e oportunidade” organizado pelo próprio Neriel e publicado pela Editora Vida). Fiquei encarregado do capítulo 3, com o título “Novos desafios com a virtualização do sagrado – rupturas e descobertas no tempo da quarentena pelo coronavírus”, em que foi possível desenhar seis referenciais ou paradigmas que foram construídos ao longo da nossa história evangélica, dentro e fora do País, que modelaram e formataram a cultura eclesiástica dando-lhe sustentação para seu funcionamento e legitimação, que, com a quarentena, foram fragilizados, pois perderam, em grande parte, sua sustentação, abrindo oportunidade para um cenário novo no ambiente eclesiástico, que tem sido bem atendido por diversos líderes e igrejas, mas, infelizmente não é possível observar o mesmo em gigante espaço de comunidades e igrejas evangélicas espalhadas pelo País.

Como serão, então os crentes e as igrejas pós quarentena? Foi a pergunta chave quando se imaginava que ela finalmente iria nos dar trégua na metade final do ano passado. Isso me levou a elaborar um questionário com o objetivo de fazer prospecção no ambiente evangélico em nível nacional. Colocado o questionário na Internet e feita a divulgação em diversos setores, foi possível obter diversos indicadores que deverei divulgar nas próximas semanas pela Internet. Foram 3.067 participantes espalhados pelo País, com 40 itens para respostas.

Hoje vou divulgar alguns itens gerais e dois interligados para demonstrar a importância deste levantamento de informações de campo com diversos indicadores.

Dos participantes tivemos a colaboração das seguintes denominações:

  • 89,2% – Batista
  • 3,9% – Assembleia de Deus
  • 2% – Presbiteriana
  • 0,6% – Metodista
  • 0,3% – O Brasil Para Cristo
  • 1,1% – Cristã Evangélica
  • 1,2% – Outra igreja não pentecostal
  • 1,7% – Outra igreja pentecostal

Tivemos a participação de 16 Estados da Federação, destacando-se

  • 35,4 % – São Paulo
  • 15,1% – Rio de Janeiro
  • 7,2% Bahia
  • 5% – Paraná
  • 4,9% – Minas Gerais
  • 4,5% – Espírito Santo

Quanto à idade:

  • Até 18 anos – 0,6%
  • de 18 a 29 anos – 9%
  • de 30 a 39 anos – 17,1%
  • de 40 a 49 anos – 26,6%
  • de 50 a 59 anos – 29,1%
  • de 60 a 70 anos – 14,8%
  • acima de 70 anos – 2,8%

Quanto ao sexo, tivemos: Masculino: 52,9% e feminino: 47,1%

O destaque de hoje fica para a pergunta dirigida somente a membros da igreja (não para pastores): “Você assistiu sermões, mensagens e/ou exposições bíblicas de outros expositores além de seu pastor?” Onde obtivemos 2.127 respostas com a seguinte apuração:

Sim: 85,8% e não 14,2%

E para quem respondeu “sim” apontamos outra indagação: “Se sim, escolha a melhor resposta”, com a seguinte apuração:

28% – Encontrei expositores melhores que meu pastor

9,6% – Não encontrei expositores melhores

62,4% – Os expositores que assisti/ouvi eram semelhantes

            O que isso aponta para nós pastores, pregadores e líderes? Para início de conversa, posso dar algumas sugestões. Por exemplo, com a pandemia/quarentena, conforme descrevo no capítulo do livro citado neste artigo, surgiu a democracia digital, de modo que os crentes tiveram maior descortinamento do acesso a outros pregadores/preletores e isto implica também em alguns indicadores importantes:

  • Há pregação e ensino da Bíblia para além do domingo, do templo, do púlpito e do pastor de sua igreja, portanto, redução ou perda da exclusividade do líder local;
  • A exclusividade fragilizada leva ao próximo passo, em que pregações/palestras/sermões podem ser objeto de comparações entre preletores/pregadores;
  • O crente fica exposto a outras alternativas teológico-doutrinárias para além do que é pregado e ensinado em sua igreja indicando que se, não recebeu as ferramentas necessárias para interpretar e compreender a Bíblia, estará sujeito a acessar a alternativas teológicas variadas deixando de ser como os crentes de Bereia que conferiam tudo o que ouviam com as Escrituras (Atos 17.11,12);
  • Os 9,6% que entenderam não ter encontrado expositores melhores apontando para quantidade que indica preocupante volume de fragilidade de púlpito. Se menos de 10% dos pregadores não conseguem atender melhor que os demais ouvidos/assistidos, então a tendência poderá ser a migração destas pessoas para outras comunidades ou igrejas, a não ser que o atendimento pessoal e pastoral possa ser mais do que suficiente para compensar o que acontece pelo púlpito;
  • Se para 62,4% encontraram expositores semelhantes a situação pode dar indicativa positiva, pois seu pastor segue alguma tendência da maioria, mas também poderá não ser tão segura assim, pois seus pastores precisarão ser manter bem atualizados com suas mensagens, além de manter bom nível de qualificada comunicação. Uma “disputa” que vai demandar muito trabalho e atualização constante, de certo modo manter a “tropa” mais dedicada;
  • 28% apontando que existem pregadores melhores é nível preocupante que, na volta da quarenta, poderá trazer de imediato o afastamento do crente de sua comunidade ou igreja ou pelo menos a busca por outras alternativas, a não ser que o acolhimento e o atendimento pastoral tenha elevado nível de qualidade.

São alguns indicadores que já apontam caminhos preocupantes para a volta da quarentena e outros indicadores poderão ser obtidos. O que é possível sugerir é que pastores e líderes busquem com humildade dialogar com seu povo para ouvir dele o que esperam para esse retorno.

Se você tiver mais sugestões de indicadores que foi possível obter destes dados me escreva: rega@batistas.org.

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